fome

Tudo o que Joana temia era que batessem à sua porta naquela noite.

Segurou o cabo da vassoura como se fosse arma, mas, logo riu-se daquele ato semi-violento, nada adequado a ela. Pôs-se então a varrer – esse sim, ato que fazia muito bem e que aprendera com a mãe, que aprendera com a vó, que aprendera com a bisavó, que aprendera com a grande matriarca da família, Eva. A outra. A primeira, a que nasceu no Nordeste. Joana varria sem tirar olho-da-porta, até que se lembrou do leite que postara à fervura; foi desligar o fogo quando… tum tum tum.

Vassoura, leite, tudo caiu no chão. Eram eles. Pronome masculino, mesmo. E no plural.  Mas calma. Quem sabe fosse a vizinha, pedindo um pouco de… TUM TUM TUM. Eram eles. Num arrebento a porta se abriu e os homens de terno inundaram a pequena casa. Um a um, posicionaram-se frente à Joana. Seu direito é o de permanecer calada, e em seguida começaram o  confisco.

Primeiro os móveis. Todos os três que haviam na sala.

A mesa. O sofá. Almofadas retiradas, uma a uma, passando de mão em mão, e das mãos para fora da casa. Desencaixaram os braços, tiraram os encostos, rasgaram o forro, arrancaram as molas, uma a uma, dali para fora.

Trouxeram chaves de fenda e a estante desmontaram lentamente, das prateleiras mais altas até as mais baixas; porta-retratos abertos, as fotos removidas, molduras desmontadas, uma a uma.

Pisaram cozinha adentro, sobre o leite derramado, abriram a geladeira, nada ficará guardado! E foram tirados, potinho a potinho, de mão em mão, um a um. E levaram a porta, os imãs, os ovos, os congelados, encaixes e suportes todos desparafusados. Torneira removida, pia desencaixada, abriram a gaveta que aos poucos foi escoada: talher por talher, primeiro o garfo, o garfo, o garfo, a faca, afaga, a faca, a colher, acolher, a colher, a mulher Joana, quieta, mantinha-lhes olhos fixos, honrando seu único direito. Afinal, ela devia e eram homens-ternos. Homens de terno.

Do quarto levaram tudo, só o espelho foi poupado. A cama, desmontada inteira, levada em pedaços, o colchão desfiado aos poucos, fio a fio, do ponto cruz à emenda no cantinho descosturado.

De mão, em mão, e porta afora, de mão em mão e… lá fora, sua casa era maior do que dentro. E Joana assistiu a todo o esvaziamento sentada no que sobrou do assoalho. Enfim, vazia.

Assine aqui, um papel estendido à frente dela. Mas quando foi colocar o dedo, puxaram-na pelo braço e começaram a desrosquear sua mão. Outros vieram pelo seu braço esquerdo, mas ali o desmonte se deu dedo a dedo, um a um.

E então os pés foram desencaixados. Os tornozelos desparafusados, primeiro o direito. Depois o esquerdo. E então as pernas, e as rótulas, e as coxas, e desmontaram sua bacia, e o torso, e os seios, e os ombros, e desacoplaram seu pescoço, o queixo, as orelhas, a boca, o nariz, e desrosquearam o olho direito. Depois o esquerdo.

E enquanto perdia sua visão, e seu corpo, e sua coesão, e seu fôlego, é que Joana foi notar. Aqueles homens só tinham olhos. Não tinham olhar.

E as peças desmontadas de Joana foram parar em bandejas, na cozinha improvisada em Santa Ceia, e partindo-as os homens disseram: “Este é o corpo que é dado por nós! Fazei isto em memória de…” e antes que terminassem comeram. Pois havia muita fome.

De justiça.

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